IRRITAÇÕES(e seus mistérios)

Coluna Reflexus por Sergio Piva em 19 de julho, 2020 10h07m
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A irritação é um estado de espírito, não exclusivo do ser humano, no entanto,
melhor visível nesse animal, porque convivemos com ele por muito mais tempo
do que com os demais.
Se for passageira, manifestando-se ocasionalmente nos momentos de mau
humor, a irritação será apenas uma disposição emocional circunstancial,
quando somos incapazes de controlar uma situação ou a nós mesmos.
O mau humor constante, quando não é algo de momento, mas se estende por
longos períodos, às vezes para vida toda e inteira, é característico da irritação
crônica, ou do que chamamos de pessoa chata.
Acredito não me enquadrar na segunda definição de irritação, mas sou chato,
ao menos ocasionalmente. Tenho melhorado, deixando de lado a chatice
provocada por coisas insignificantes, situações efêmeras e seres de alma
pequena.
Continuarei na jornada incessante, se não infinita, de busca do
autoconhecimento, tentando me irritar o menos possível, ou melhor, ser menos
chato com quase tudo que não vale a pena.
Contudo, existem situações que são próprias do irritar, de vez em quando
enervantes e, ainda que sejam desculpas para meu estado de espírito e para
minha chatice incrustrada, têm coisas que me irritam quase que
profundamente, as quais listarei abaixo.
Motoristas que dirigem em avenidas com duas pistas de rolamento e andam
entre elas, bem em cima da faixa pontilha. O pior de tudo é que esse tipo de
condutor faz a obra descrita andando a vinte quilômetros por hora, nem vai
nem deixar quem está atrás dele ir. Isso me irrita tanto, talvez porque eu só
ande apressadamente, que pretendo escrever um texto falando exclusivamente
do assunto ou dessa típica figura urbana.
Pessoas que jogam lixo ao chão. Aliás não sei qual delas me irrita mais,
aquelas que atiram seus resíduos sólidos aos próprios pés, estando a poucos
passos, se não apenas um, da lata de lixo, ou aqueles que atiram pelas janelas
dos automóveis latinhas, embalagens, papeis de bala, bitucas de cigarro,
restos de cérebros e demais matérias descartáveis, deixando-os espalhados
pela via pública.
Pessoas que estão sentadas defronte minha mesa de trabalho e ficam lendo o
que está escrito nos papéis sobre a mesa, quando não pegam na mão para
prosseguir com a leitura mais detalhadamente, dando-se além dessa liberdade,
ou seria apropriado dizer invasão, o disparate de fazer perguntas sobre o
escrito, e além, dar opinião ou inquirir sobre aquilo que sequer lhes diz
respeito.

Coisas que não funcionam quando a esposa põe a mão. Suponho que deva ser
uma maldição lançada sobre as mulheres ou talvez, opostamente, um dom
divino que lhe dá a capacidade e extrema habilidade de irritar o esposo. Andei
pesquisando informalmente e descobri que o fato não acontece só com a
minha, mas com as esposas dos meus amigos e conhecidos. É curioso como
qualquer aparelho inventado pelo ser humano, que venha funcionando
perfeitamente, não funcione quando a esposa coloca a mão.
A frase que mais ouço em minha casa depois de “você não me ajuda” é a
afirmação “isso não funciona”, ainda que eu tenha acabado de usar o bendito
aparelho que ela está tentando ligar. O mais misterioso ainda é que o tal
aparelho, ou qualquer outra coisa que necessite de energia elétrica ou humana,
que não estava funcionando na mão da esposa, liga ou executa imediatamente
a tarefa para qual foi fabricado quando está na mão do marido.
Fenomenal! É a interjeição mais adequada para expressar o que acontece
nesse momento, especialmente porque a palavra é derivada de fenômeno, no
caso, paranormal, porque não se sabe como as esposas conseguem
excepcional proeza.
A lista irritante é longa e não cabe no espaço que a mim é reservado, nem
parece ser atrativo tantos exemplos de chatice. Acho que apenes esses
bastam para ilustrar as irritações que me perseguem diariamente, com maior
ou menos grau, pouca ou mais duração, dependendo do momento, local, ou
situação que ocorram.
Pensando melhor, pode ser que eu as persiga, pode ser que eu queira
controlar todas as situações, pode ser até que seja meu carma ou minha
condição de atração dos contextos de irritação.
Seja como for, o que mais me irrita mesmo é ficar irritado. Sem dúvida isso
está no topo da lista, mas deixei para o final para não revelar meu segredo logo
no início e assim deixar o texto mais irritante ainda.
O fato é que, quando ocorrem as irritações, quando estou no estado de chatice
e me torno um chato de plantão, na maior parte das vezes comigo mesmo,
existe um desejo que sempre dá um grito mudo lá no fundo do meu ser
dizendo: pelo amor de Deus, me tire de perto de mim.

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