Medo do medo (Qual faca)

Coluna Reflexus por Sergio Piva em 11 de julho, 2020 20h07m
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O medo não nasce com a gente, são gentes que colocam medos dentro de nós. A
começar pelos pais que, na tentativa de que as crianças satisfaçam seus desejos e
necessidades, trazem monstros do mundo imaginário para aterrorizarem o mundo real
dos pequeninos.
Nana neném, que a cuca vem pegar, papai foi na roça, mamãe foi trabalhar.
Como é que a criança vai dormir sabendo que a cuca vem vindo para pegá-la?
Parênteses: ir na roça não é trabalhar?
Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta. Se
o menino já tem medo de careta, imagina de um boi enorme, que vem à noite
(porque o refrão é cantado para fazer dormir) e ainda por cima de cara preta.
Como é que vou ver esse boi no escuro, devem pensar os bebês.
Bicho papão sai de cima do telhado, deixa esse menino dormir sossegado.
Com um bicho papão em cima do telhado não dá para dormir de jeito nenhum.
Como ter certeza de que ele desceu do telhado? E se desceu, como saber se
foi embora ou vai entrar de repente pela porta ou janela?
Como relaxar para dormir com tanto medo que nos põem quando bebês? E
depois, conforme vamos crescendo, ainda tem mais, muito mais. Se não era o
homem do saco, era a polícia. Nunca soube qual seria pior, ser sequestrado ou
preso.
Na escola, também não estava a salvo, se saísse da sala, a inspetora do
corredor podia me pegar, se fizesse graça na sala de aula, ia falar com a
diretora (monstro real). Não faz a tarefa para ver, castigo na escola e, na
melhor das hipóteses, em casa, não assistir televisão por uma semana. Na
pior, dava medo só de pensar.
A vida seguia e os medos perseguiam. “Cuidado!” Dizia apavoradamente
minha tia na plataforma da estação quando ouvia o apito trem. “fique para trás!
Ele é perigoso, pode te pegar!” Eu imaginava um dragão enorme vindo na
minha direção.
Passado o primeiro pavor, já sentado no banco, com o trem em movimento, ela
afirmava: “Não coloca a cabeça para fora da janela! Se tiver um galho, arranca
sua cabeça!”
Gente para colocar medo nunca faltou. Pessoas que por medo de si mesmas,
ou medo do outro, traziam à tona todos os medos possíveis existentes no
mundo.
Medo de conseguir serviço, medo de não ser capaz de fazer o serviço, medo
do patrão, medo da demissão, medo de passar fome, medo de namorar, medo
do namoro terminar, medo de ficar sozinho no mundo (com quase oito bilhões
de habitantes), medo de casar, medo do casamento não dar certo, medo de ter
filho, medo de não saber ou não conseguir criar o filho, medo de ficar doente,

da velhice, da senilidade e da morte. Será que existe vida após a morte? Ai que
medo!
Não dá para ser normal com tanto medo, mas dá para viver normalmente
quando pensamos sobre ele e começamos a entender para que o medo existe.
Mais ainda, quando somos capazes de diferenciar e classificar os tipos de
medo.
Primeiro entre aqueles usados para nos controlar por outrem e aqueles
suscitados por situações externas que fazem ressurgir medos inerentes,
colocados em nosso ser por diversas razões em épocas e ambientes já
relatados.
O medo é uma faca: pode ser um utensílio doméstico ou uma arma. Pode ser
usado para descascar batatas e cebolas e cortar alimentos ou utilizado para
furar e fazer sangrar o corpo das pessoas.
O medo está na porção, assim como a dose está entre o veneno é o remédio.
Não ter qualquer medo pode mata-lo, assim como ter medo demais pode
paralisá-lo.
Como o amor não é o contrário de ódio, o medo também não é o oposto de
coragem. Coragem não é não ter medo, é enfrentar esse medo. Ferramentas e
armas podem garantir nossa sobrevivência e nos defender de perigos. As
doses daquilo que é capaz de nos alimentar ou matar, depende de
aprendermos o equilíbrio entre elas.
Nelson Mandela, o Madiba, em sua autobiografia intitulada "Long Walk to
Freedom" ('Longa Caminhada Até a Liberdade') disse: “Aprendi que a coragem
não é a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é
aquele que não sente medo, mas o que conquista esse medo.”
Se há algum segredo para vencer o medo está justamente na gente. Por isso
dizia Millôr Fernandes: “Eu sofro de mimfobia, eu tenho medo de mim mesmo e
me enfrento todo dia.”
Enfrentar a gente antes de enfrentar o medo é a chave para a vitória e, melhor
do que isso, para a liberdade.

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