Desinovação (ou A Descriação da Invenção)

Coluna Reflexus por Sergio Piva em 25 de julho, 2020 14h07m
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Sempre quis inventar alguma coisa. Desde adolescente, enquanto caminhava
ou andava de bicicleta, meu pensamento viajava longe buscando criar algo que
ainda não existia ou que pudesse ser transformado.
Lembro-me com clareza que, em uma das minhas andanças de bicicleta pelas
ruas da cidade, enfrentei uma subida um pouco íngreme no caminho que
percorria todos os dias até o trabalho.
Foi quando pensei em uma maneira de aliviar o esforço, pois havia vários tipos
de catracas para bicicletas, sendo que as maiores ajudavam a diminuir a força
para se alcançar o topo de um aclive.
Faltava, assim, descobrir uma forma de colocar duas catracas na mesma
bicicleta, uma grande para as subidas e outra de tamanho menor para os
lugares planos.
Até esse ponto, tudo bem, minha invenção era genial. Mas precisava achar um
jeito de mudar a corrente de uma catraca para outra. Meu pensamento fixou-se
nessa tentativa por muitos quarteirões do meu itinerário.
Eis que, de repente, veio-me à memória a lembrança (como se ela fosse uma
figurinha do álbum da copa que tivesse sido colada bem no meio da minha
testa por um forte tapa de uma mão enorme) de que a bicicleta com marchas já
existia. Que pena. Foi frustrante. Estava quase em vias de patentear meu
invento.
Nunca desisti de querer inventar o que quer que fosse, porém, essa tarefa
ficava cada vez mais difícil, porque tudo que pensava em criar já havia sido
inventado.
Mas essas tentativas me tornaram mais observador e admirador de certas
invenções e inovações inseridas em nosso cotidiano rotineiro e que, por isso,
quase sempre passam despercebidas, como é o caso da impressora para
computadores.
Acho fantástica essa invenção. Transformar códigos em imagens concretas.
Mais fantásticas ainda são as impressoras 3D, já disponíveis no mercado para
qualquer pessoa, desde que ela tenha dinheiro para adquiri-las, já que o preço
ainda é salgado.

Tanto inventar como inovar (palavra da vez nos dias atuais) não é uma tarefa
das mais fáceis. Tampouco impossível, dado às inúmeras invenções e
inovações existentes ao nosso redor.
A Inovação, ou seja, a implementação de ideias criativas dentro de um contexto
específico, nem sempre é sinônimo da criação de algo novo. Inovar pode ser
melhorar aquilo que já existe, seja um produto, serviço, processo ou arranjos
de organização. A impressora 3D é um claro exemplo de inovação. Será que o
contrário também existe, uma inovação às avessas?
Minhas observações dizem que, sim, existe. Vejamos um exemplo do nosso
dia a dia: o guarda-noturno. Estou falando daquele que faz a vigilância das
residências, toma conta da nossa rua, como costumam dizer.
Uma invenção interessante de um serviço necessário. Não sei quando foi
criado. Imagino que há muito tempo. Recordo-me desde criança da sua
existência. Também da existência de um acessório que se tornou a marca
registrada dos guardas-noturnos: o apito.
Na minha infância, o apito tinha certa serventia, pois era um tempo (quando a
gente usa essa expressão, significa que não somos mais tão jovens
cronologicamente) em que ladrão tinha medo de guarda-noturno. Acredito que
o apito era um aviso para dizer “estou aqui, não se atreva a vir”.
Hoje, quando usam o apito, não vejo muita razão nesse acessório, que avisa
ao meliante onde precisamente está o guarda, dando tempo para que aquele
possa dar andamento ao seu intento, já que o vigia não está próximo e, pelos
apitos, sabe quando tempo demorará a chegar.
Até aqui, quase tudo bem. Mas não é que inovaram o guarda-noturno! Criaram
um guarda que anda de moto, que realiza as rondas com mais rapidez e maior
agilidade. E mais, inovaram o apito. Deus do céu!
Substituíram-no por um sinal sonoro eletrônico, uma espécie de buzina
irritante. Se a segunda função do apito já era a de não deixar a gente dormir,
avisando que aquele a quem devemos a mensalidade estava ali presente,
esperando o momento da cobrança, o novo sinal vai além.
Ele é capaz de avisar a quilômetros onde está o guarda-noturno e, ainda, de
não deixar, em hipótese alguma, a gente repousar tranquilamente, porque
aquela buzina emite um som agudo tão forte que consegue ir diretamente lá no
fundo do nosso cérebro e gritar bem alto “OLHA O GUARDA!”. E eu nem sou
ladrão. Afora o fato de que, hoje, bandido não tem medo nem de polícia, que
dirá de guarda-noturno.

Espero que as próximas inovações de serviços sejam realmente evoluções,
porque fico imaginando como seria a desinovação daquela broca do dentista, o
famoso “motorzinho”. Deus me livre e guarde.

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