Sobre Camas e Outras Idiossincrasias

Coluna Reflexus por Sergio Piva em 27 de outubro, 2020 09h10m
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Dizem que teimosia é uma característica marcante dos espanhóis e seus
descendentes. Existem inúmeras piadas e brincadeiras sobre o fato. Uma delas
diz que é muito fácil colocar vinte espanhóis dentro de um fusca: basta falar
que não cabem.

A teimosia é associada tanto a aspectos negativos como positivos. Alguns
acham que teimosia é sinônimo de convicção, obstinação e determinação.

Outros que é apenas ignorância, comportamento que beira à burrice,
senilidade. Fora os eufemismos: pessoa de caráter forte, genioso, caprichoso,
jeito peculiar de viver.

Na música “teimoso”, da banda “Ultraje a Rigor”, o compositor também fala da
dualidade de significâncias que essa palavra provoca, dizendo que “a minha
teimosia não é como a do burro / a minha teimosia é o que me faz seguir em
frente”.

Essa característica, todavia, não é exclusividade de um povo, até porque acho
italiano tanto ou mais teimoso que espanhol. Falo de causa própria. Tenho
ascendência italiana em quase todos os galhos de minha árvore genealógica.

Observando meus avós e ouvindo, desde moleque, que sou teimoso,
especialmente quando essa afirmação vem de gente que se considera
espanhola, me parece que talvez, quem sabe, não concordo totalmente, até
nego, eu seja um pouco, pouquíssimo, teimoso.

Para ilustrar, conto uma história ocorrida há muitos anos, quando mostrei
minha determinação ou caráter forte. Tinha no meu quarto uma cama de casal,
uma cômoda e um guarda-roupa. Em um daqueles dias que acordamos
inspirados, resolvi mudar a disposição daqueles móveis. Como morava
sozinho, não havia ninguém para dar opinião e, melhor ainda, dar palpite, pois
são coisas diferentes.

A primeira providência foi tirar a cômoda do quarto. O guarda-roupa coloquei
na parede onde havia uma porta. Encaixou perfeitamente no espaço sem
aberturas. A cama, assim como os outros móveis, era antiga e pertencera a
minha avó paterna, todos relíquias afetivas, daquelas que quase todo mundo
tem e não se desfaz tão facilmente. Não desapega, nem com a OLX. Crença
do ser humano de que o valor está nas coisas, não nas pessoas.

Enfim, coloquei a cama encostada na parede do lado aposto ao guarda-roupa e
a cabeceira contra a parede da diagonal. Os pés da cama ficaram próximos à
parede que restou vazia, onde estava a janela do quarto. Foi justamente nesse espaço, entre os pés da cama e a parede da janela, onde resolvi colocar uma
estante.

Dessa forma, a estante de aço pequena, ainda na minha imaginação, ficaria
espremida entre os pés da cama e a parede da janela, num canto onde essa
não a alcançaria, já que fora aberta no meio da parede. A parte traseira da
estante ficaria escorada na parede que acompanhava um dos lados da cama.

Até aqui tudo bem, se o espaço reservado para colocar minha estante não
fosse insuficiente. Porém, já tinha feito todas as mudanças desejadas e havia
projetado mentalmente a estante naquele lugar.

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Minha namorada da época apareceu em casa logo depois das mudanças,
então contei minhas intenções para ela, não com ela. Quando falei sobre o
plano de colocar uma estante no lugar reservado, sua primeira indagação foi a
de querer saber como eu iria colocar uma coisa em um lugar que não cabia.
Resposta óbvia: não sei, mas vou por a estante naquele espaço.

Passavam-se os dias e sempre que minha namorada entrava no meu quarto
me via de short, sem camisa, todo suado e com trena na mão. Trena é aquela
fita métrica amarela, bem fina, de aço. Só não sei o porquê de todas serem
amarelas. Como isso não interferiu nas minhas medições, vamos prosseguir
com a história.

Até que chegou o dia em que minha namorada entrou no quarto e me pegou no
flagra. Lá estava eu agarrado a ela, segurando firme com as mãos suadas.
Sim, a estante. Comprei. Ela, a namorada, perguntou se tinha achado outro
lugar para colocar a estante. Disse que não, que pretendia colocar no lugar
programado. Ela retrucou dizendo que eu já tinha me certificado que não
caberia.

E o que sucedeu foi algo parecido com aqueles flashbacks de filmes
americanos, mostrando uma sucessão de cenas em que minha namorada
entrava no quarto e me via tentando colocar a estante no lugar programado,
por mim, é claro. Tentava encaixá-la no lugar colocando-a na diagonal para
depois endireitá-la. Em outra tentativa suspendia a estante acima da cama e ia
descendo para ver se encaixava. Se eu fosse descrever todas as minhas
tentativas, escreveria um livro.

Assim, em um belo dia de primavera, numa refrescante tarde de sábado,
quando os raios sol entravam delicadamente pela janela no intervalo do
balançar das cortinas, empurradas pelo vento fresco que trazia consigo o
aroma das flores do jardim, minha namorada chegava mais uma vez ao meu
quarto.

Não foi bem assim que aconteceu, mas achei que contando dessa forma dava
um ar mais romântico à cena. A verdade é que, quando minha namorada entrou no quarto, lá estava a estante, estacada inerte no lugar planejado desde
o princípio, com todos os ornamentos visionados conjuntamente com aquela
prateleira.

“Mas como você conseguiu?”. Era a primeira indagação que espera ouvir. E
ouvi. Então, tratei de explicar. “Muito simples, serrei a cama”. Segunda
pergunta óbvia: “Como é que é?” Segue-se a explanação.
Nas minhas tentativas e análises de sucesso ao meu intento, percebi que havia
um espaço entre o final do colchão e o pé da cama. Os centímetros precisos
que separavam minha teimosia da minha determinação, a distância entre eu
ser uma mula ou um empreendedor. Não tive dúvida, desmontei a cama, serrei
os trilhos laterais, refiz os furos que haviam antes, coloquei os parafusos nos
seus lugares, me certifiquei de que tudo estava firme e coloquei a estante
exatamente no lugar que planejei.

Essa história pode parecer um relato de teimosia. Talvez possa mesmo ser.
Não me incomoda ser chamado de teimoso, nem vou teimar com isso hoje. O
que me incomoda, verdadeiramente, é a prepotência fantasiada de teimosia.
Devemos diferenciar uma da outra. Não é difícil fazê-lo. Teimoso é aquele que
serra a própria cama. Prepotente é o que quer serrar a cama dos outros.

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