Sinais – homens e vinhos

Coluna Reflexus por Sergio Piva em 13 de março, 2021 13h03m
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A expectativa de vida dos brasileiros tem aumentado nas últimas décadas.
Segundo o IBGE, os moradores do sul tem maior expectativa de vida em todo
Brasil. Portanto, se quer viver mais, mude para Santa Catarina ou Rio Grande
do Sul e, por via das dúvidas, comece a tomar chimarrão.
Uma coisa é certa, seja qual for o tempo que temos, vamos envelhecer. Como
diz o músico e poeta Arnaldo Antunes em sua música “Envelhecer”: “A coisa
mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”.
Ainda assim, há uma resistência das pessoas em seguir o ritmo natural da
vida. Querem segurar os ponteiros do relógio, como se ele fosse o grande
culpado, acusação eternizada nos versos de Mário Quintana: “O mais feroz dos
animais domésticos / é o relógio de parede: / conheço um que já devorou / três
gerações da mina família.”.
Outro exemplo está na obra de Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”, na
qual o jovem Dorian, corrompido pela natureza destrutiva e hedonista do
personagem Lord Henry, passa a ver o lado fútil da vida e tenta eternizar sua
beleza juvenil.
Sem analisar pelo critério da idade, como posso saber se estou envelhecendo,
ou se já envelheci? Sim, porque a idade cronológica é diferente da idade
mental ou emocional. Tem gente velha aos vinte anos e jovem aos setenta.
Quais, então, são os sinais que indicam o envelhecimento?
Sem mencionar o aspecto físico, que está sendo disfarçado atualmente pelas
cirurgias plásticas, deixando a cara mais esticada que couro de gato em
tamborim, pois se a beleza não é eterna, pelo menos o sorriso será, existem
outros detalhes que entregam a idade, especialmente do homem, já que a
mulher é mestre do disfarce.
Colocar aquele monte de papel no bolso da frente da camisa é um sinal claro
da idade avançando ladeira acima, numericamente falando. Molho de chaves
pendurado no passante da calça, balançando e tilintando pelo caminho afora,
outro. Tem mais.
Chamar adolescentes de molecada, jovem de vinte anos ou mais de menino e
menina, acordar cedo e varrer calçada, chegar antes do mercado abrir e ficar
na fila do lado de fora, assistir ao programa de Inezita Barroso (quando ainda
existia) ou do Rolando Boldrim,
Achar que todo som está alto demais, falar “no meu tempo”, “na minha época”,
“não se faz mais (qualquer coisa) como antigamente”, ser expulso da sala

pelos filhos que trouxeram os amigos para jogar video game, usar chinelo com
meia, usar óculos bifocal ou dois óculos, chamar o aplicativo de “zap-zap”, não
conseguir falar o nome do supermercado Sakashita, nem qualquer outro nome
que tenha duas consoantes juntas.
Levantar da cama para ver se trancou a porta ou se não tem nenhum botão do
acendedor do fogão ligado, não sair de casa sem blusa quando o destino for
mais de vinte quilômetros, começar a troca os nomes dos filhos, principalmente
se a família for numerosa. E tantas outras manias e hábitos. A lista é grande.
Quem tiver sua própria lista, por favor, envie para meu e-mail, preciso desses
dados para um checklist.
Se não existe, ainda, elixir da juventude, máquina do tempo e maneira de
segurar os ponteiros do relógio, pelo menos disfarce e evite alguns desses
hábitos e manias. Rejuvenescimento garantindo. Mais que creme da Avon.
Apesar de manias e aparências serem mais fáceis de mudar, a ranzinzice é
mais difícil. Alterar o humor leva mais tempo do que idoso atravessando a rua
na diagonal (ô mania).
O bom humor é o verdadeiro elixir da juventude. Condição apreciada por
poucos depois de certa idade. Além de outros aspectos da personalidade, que
com o passar do tempo ficam sedimentados no fundo alma das pessoas. Seja
por quais motivos forem.
Como observou o filósofo romano Cícero, “Os homens são como os vinhos: a
idade azeda os maus e apura os bons.” Sugiro, assim, que aprenda a
conservar seu vinho de maneira sábia, em ambiente arejado e temperatura
adequada.

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